Existe um trajeto de mão única idealizado por milhares de garotos pobres no Brasil. Sair da favela para se tornar uma estrela do futebol. O caminho inverso é uma escolha rara. Dificilmente o jogador que alcança status de popstar conserva laços genuínos com sua comunidade, com sua quebrada, com os campos de várzea que viram seu talento brotar. Por isso, Adriano Imperador, que há mais de cinco anos não disputa uma temporada completa e está sem jogar desde o primeiro semestre de 2016, quando se aventurou numa liga amadora dos Estados Unidos, segue chamando tanta atenção.

Em entrevista ao programa “Conversa com Bial”, da Globo, o ex-atacante, ídolo do Flamengo e Inter de Milão, consagrado por uma notável passagem pela seleção brasileira, voltou a mostrar que o ser humano tantas vezes oprimido por trás do uniforme de atleta se sobrepõe à figura do ídolo infalível.

Adriano faz a barba em uma rua da Vila Cruzeiro.

Didico, como é conhecido por ex-companheiros de seleção, foi bastante criticado ao longo do processo de ascensão e queda na carreira. A Pedro Bial, ele reconhece que cometeu um “mar de erros”. Várias críticas merecidas quando se tratavam de seu desleixo com o profissionalismo exigido pelo futebol de alto rendimento. Algo que se transformou em depressão após a morte do pai, em 2004.

O dinheiro proporcionou a Adriano a oportunidade de comprar uma casa confortável fora da favela e afastar seus familiares do contexto de violência social que assola os morros do Rio de Janeiro. Porém, não lhe tirou o desejo de retomar sua essência e buscar a felicidade ao lado de quem ama. Isso vale – ou deveria valer – muito. Seguro de suas escolhas, ele parece, enfim, aos 35 anos, ter alcançado a plenitude que lhe permite desfrutar dos bons momentos acompanhado da família e dos amigos. Viva Didico! E que ele siga vivendo como bem entender, sem a obrigação de voltar a jogar para saciar o desejo de críticos que jamais compreenderão que o boteco de esquina da Vila Cruzeiro pode ser um lugar muito melhor que as vitrines badaladas – e frívolas – de Milão.

Adriano diz ter aprendido a simples lição com o pai, de que “o mal não se trata com o mal, se trata com o bem”. De fato, até que se prove o contrário, ele não faz mal a ninguém. Outra de suas frases célebres serve bem como resposta a quem o julga e o discrimina por ter preferido a favela ao futebol: “Que Deus perdoe essas pessoas ruins”.

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